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É normal ter dor na relação sexual?

A dor durante o sexo é comum, mas não significa que seja *normal* ou *suposto*. Em consulta de Sexologia Clínica, é frequente receber casos de mulheres com dor sexual. E, muitas vezes esta queixa perdura há tempo suficiente para causar sofrimento psicológico – 1 ano, 3 anos, 7 anos e até mais de 10 anos. Talvez porque nos vão ensinando que, enquanto mulheres (ou pessoas com vulva), é normal sentirmos um pouco de dor na penetração, então vamos aguentando, aguentando, aguentando, até se tornar num problema incompatível com uma vida sexual satisfatória.

É muito comum ouvir histórias de pessoas que nunca conseguiram ter relações sexuais com penetração, ou que não conseguem introduzir um tampão menstrual e fazer um exame ginecológico, ou que sentem uma angustia gigante de ter dor e evitam contacto sexual, ou que é como se houvesse uma “barreira” à entrada da vagina, ou pessoas que já conseguiram ter sexo prazeroso e agora parece algo inalcançável. Apesar da prevalência poder variar de acordo com cada país, a Organização Mundial de Saúde indica que globalmente, 8% a 21% das mulheres sentem dor persistente associada à relação sexual. Contudo, a sua vivência varia de pessoa para pessoa, existindo diferentes níveis de impacto no funcionamento emocional, motivacional, interpessoal e físico.

A Perturbação de Dor Génito-Pélvica é uma condição persistente de dor e pode traduzir-se nos seguintes sintomas:

– Dificuldade na penetração vaginal;
– Dor intensa na vulva, vagina ou pélvis durante a relação sexual ou tentativa de penetração vaginal;
– Medo e/ou ansiedade da dor vulvovaginal ou pélvica em antecipação, durante ou resultante da penetração vaginal;
– Contração dos músculos do pavimento pélvico durante a tentativa de penetração vaginal.

Esta condição parece ser influenciada por diversos fatores, nomeadamente biológicos (ex. malformações genitais, endometriose, infeções vulvovaginais, infeções urinárias recorrentes, alterações hormonais derivado ao uso de contraceção hormonal, gravidez ou menopausa), culturais e educacionais (educação conservadora, falta ou inadequação de educação sexual, atitudes negativas face à vivência da sexualidade), individuais (instabilidade emocional, perturbações de ansiedade e de humor, baixa autoestima e problemas com imagem corporal) e/ou sexuais (experiências prévias com dor, trauma decorrente de abuso sexual, relacionamento pouco saudável com a parceria ou outras disfunções sexuais).

O tratamento da dor génito-pélvica deve ser realizada em conjunto com Psicologia, Ginecologia e Fisioterapia Pélvica, de forma a abranger os diferentes impactos da mesma. E, por isso, em consulta de Sexologia é feita referenciação para outra especialidade, sempre que se justifique.

Caso se identifique com os sintomas suprarreferidos, é importante procurar ajuda, nomeadamente de um profissional especializado em Sexologia Clínica. Até lá, prefira atividades sexuais que não envolvam desconforto (retirar o foco da penetração e investir noutras atividades prazerosas) e tente diminuir fatores irritantes (ex. utilizar de cuecas algodão, fazer higiene intima sem produtos irritantes, utilizar lubrificante à base de água). E relembro, a dor na relação sexual não é normal!

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