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Será que me conheço tão bem quanto penso?

Quantas vezes, normalmente perante situações mais complexas, assumimos comportamentos ou tomamos decisões que julgávamos não ser capazes de tomar a priori? Já lhe aconteceu dar-se conta de que poderá ter características que não lhe são completamente conscientes? Arrisco-me a dizer que grande parte das pessoas já terá experienciado algo deste género e ter-se-á questionado sobre o porquê de pensar e/ou agir de determinada forma. Assim sendo, será que nos conhecemos tão bem quanto pensamos?

Cada ser humano tem uma forma diferente de olhar a realidade objetiva, o que a torna, não raras vezes, um alvo fácil e muito suscetível a distorções. A forma, idiossincrática, como olhamos a realidade é, então, subjetiva e está dependente, quer da nossa herança genética, quer, em maior escala, da soma de todas as experiências que vivenciamos, que constituem o nosso meio ambiente. Quase como se cada um de nós usasse, o tempo todo, umas lentes que moldam a forma como a realidade está a ser percecionada e, consequentemente, interpretada. Daqui que pessoas diferentes possam interpretar a mesma realidade objetiva de uma forma completamente distinta.

Tendemos a interpretar a realidade de acordo com padrões previamente estabelecidos nos nossos circuitos neuronais, isto é, de acordo com crenças que vamos desenvolvendo, ao longo da nossa história de vida, e que estão na base de todo o nosso olhar sobre aquilo que nos acontece e porquê. A estas crenças chamamos de esquemas cognitivos. Passo a explicar recorrendo a um exemplo prático.

Imaginemos o caso do Pedro que, enquanto criança, viveu no seio de uma família destruturada. Os pais não mantinham uma relação estável e afetuosa entre si, nem com o próprio filho. A mãe, apesar de ser uma pessoa carinhosa, era bastante instável e imprevisível na interação que mantinha com o Pedro, e não estava presente nem valorizava os momentos importantes para o mesmo. O pai, por outro lado, sempre foi uma pessoa ausente e distante, com dificuldade em assumir as próprias vulnerabilidades e mostrar aquilo que sentia. Com base nestas vivências, e tendo em conta que nenhum dos progenitores lhe satisfazia as suas necessidades afetivas, o Pedro desenvolveu a crença de que não seria suficientemente bom para conseguir o amor, o carinho e a atenção dos pais. Mais tarde, já adulto, o Pedro iniciou uma relação amorosa com a Maria. Inicialmente, a Maria, que também possuía as suas próprias inseguranças, tinha algumas dúvidas acerca do futuro da relação entre ambos e, por conseguinte, a forma como mostrava que gostava do Pedro ficava aquém do esperado. Contudo, ele permaneceu ao lado dela, pois, de alguma forma, a Maria confirmava ao Pedro que ele não seria suficiente bom para receber amor, carinho e atenção da sua parte. Todavia, com o tempo, a Maria foi começando a abrir-se cada vez mais, a dedicar-se à relação e a mostrar aquilo que sentia pelo Pedro. Esta mudança no comportamento da Maria começou, então, a desafiar aquilo que o Pedro acreditava sobre si próprio: que não seria bom o suficiente e, eventualmente, seria rejeitado. Posto isto, o Pedro começou, inconscientemente, a afastar-se da Maria e a sabotar a relação, mas, acima de tudo, a si próprio.

Tendemos, no final de contas, a relacionar-nos com pessoas que confirmam os nossos esquemas, já que essas pessoas não nos desafiam a pensar e a sentir de modo diferente daquele que nos é confortável, por mais que esse conforto seja desagradável.

Refletindo sobre o que leu, ainda acredita que se conhece tão bem quanto pensa?

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