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Problemática dos ecrãs na infância e adolescência.

“A infância de hoje está exposta a uma orgia digital”, diz Michel Desmurget na sua interessantíssima obra: “A fábrica do cretino digital”. Uma leitura, aliás, recomendada a todos os pais, educadores e curiosos. Sabemos que a atual geração jovem experimenta o uso de dispositivos eletrónicos como uma parte central das suas vidas (Lissak, 2018). Crianças e adolescentes usam, cada vez mais, uma variedade maior de dispositivos de media digital de forma recreativa/lazer (Lissak, 2018). As rápidas melhorias tecnológicas permitem condensar na experiência dos usuários uma crescente variedade de estímulos, de ritmo mais rápido, e que são acessíveis quase a qualquer hora e lugar, por meio de dispositivos móveis; consequentemente, atraem os jovens para um progressivo uso excessivo de tempo de ecrã, acima do limite recomendado de 2 horas por dia (Henderson et al., 2016).

Junto com as vantagens associadas ao acesso à informação e comunicação rápida, nos últimos anos muitos estudos associaram a exposição aos ecrãs (uso digital: aplicações, redes sociais etc) com problemas de saúde física e psicológicos entre bebés, crianças e adolescentes (Lissak, 2018). De entre as várias consequências para a saúde mental associadas ao uso excessivo dos media, e outras aplicações nos dispositivos eletrónicos, incluem-se a depressão, a ansiedade e o impacto negativo na autoestima, possivelmente associados a uma comparação social (upward) relacionada (embora outros factores sejam equacionados) com a exposição a imagens idealizadas (Association of Screen Time and Depression in Adolescence, Boers et al. 2019). Acumulam-se ainda consequências negativas a nível da qualidade do sono, com atraso na hora do deitar (e encurtamento do tempo total de sono), bem como o consequente cansaço diurno (Oshira et al. 2012; Lemola et al. 2015).

Como resposta a um problema tão complexo, abrangente e com consequências para a saúde ainda em estudo, será natural que pais, educadores e profissionais da área de saúde mental coloquem questões relativas a:
1. Qual o tempo de uso de ecrãs adequado para crianças e adolescentes?
2. Como deve ser estabelecido esse uso?

No que diz respeito ao tempo de uso, devem ser estabelecidas regras pelos pais, educadores ou “role models”, regras estas restritas, não punitivas e precisas; a OMS (Organização Mundial de Saúde) indica que até ao 1º ano de vida as crianças não devem ser expostas a conteúdo digital; entre o 1º e 5º ano de vida, aproximadamente, o tempo de exposição deve ser de até 1 hora, e após os 6 anos não superior a 2 horas. Deve ainda evitar-se a saturação sensorial, apostando no contacto humano e atenção (partilhar atividades lúdicas não digitais como puzzles, leitura de livros, jogos de faz de conta etc). E se a frase menos ecrãs, mais vida (Desmurget M. 2019) parece trazer-nos otimismo e esperança, bem como uma resposta simples a um problema complexo, a realidade é que o mundo digital não deve ser ignorado, reduzido a malefícios e restrições. Igualmente, não deve ser relegado ao facilitismo do seu uso. O balanço de atividades recreativas não digitais, e digitais, parece coadunar-se com uma adaptação à era digital em que vivemos, e na qual crianças e jovens nascem (“Nativo Digital”). A exclusão digital não aparenta ser a resposta adequada. Como o povo costuma dizer, com a sua reconhecida sapiência: “no meio está a virtude”.

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