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Quando devem os filhos sair de casa dos pais?

Há problemas relativamente frequentes que surgem em consulta. Normalmente, questões familiares entre pais e filhos resumem-se a questões do desenvolvimento, da descoberta de novos limites e reajuste das relações familiares. Isto é tão verdadeiro quando estamos a falar de pais de uma criança a iniciar o primeiro ano escolar como num jovem adulto que está a descobrir quem é e o que faz na sua vida.

A questão do “dar o pulo” para fora de casa dos pais é, sem surpresa, bastante frequente.

É um tema pautado por imensos fantasmas. Para começar, o mais óbvio, a culpa face às expectativas. Se por um lado é um argumento usado como desculpa para prolongar o ninho familiar, a verdade é que a sociedade de hoje mudou as suas opções. É esperado do jovem adulto de hoje uma série de etapas que anteriormente eram consideradas desnecessárias, um luxo; hoje espera-se que o jovem adulto tire, no mínimo, a licenciatura, depois, com muita sorte, tenha um estágio na área, de modo a poder adquirir anos de experiência para aí sim, se poder candidatar a trabalhos para os quais estudou e receber um ordenado que lhe permita viver. Ao mesmo tempo, é paradoxalmente, esperado que o jovem adulto tenha o mesmo que os seus pais tinham com a sua idade.

Por outro lado, há por vezes a ideia, errada, de que o filho sair de casa representa uma ruptura na relação familiar antiga. Não é uma ruptura. Quando estabelecemos relações de afecto nunca existem rupturas porque não passamos uma borracha no que aquela pessoa representa para nós, apenas reestruturamos a relação num novo tipo de relação.

Então, quando sair de casa dos pais?

Depende.

Por muito que a internet e o facebook divulgue listas do que é esperado a cada idade, a verdade é que qualquer pai e mãe sabe que os filhos são indivíduos únicos e, portanto, cada responsabilidade deve ser analisada e pensada no que representa.

Há uma série de questões em consulta que discuto para aprofundar esta questão. O que é para o jovem adulto esta coisa do “sair de casa”? Que noção tem do real, daquilo que lhe é exigido, das responsabilidades e direitos? É apenas um devaneio fantasioso de uma liberdade sem limites? Ou pelo contrário tem uma noção das responsabilidades que terá? Sabe viver sozinho? Ou a companhia de si mesmo é de uma solidão enorme? Que encargos há? Como são pagos? Alguma vez o jovem adulto e os pais se sentaram para planificar o quanto o filho ganha, e o que teria de gastar? Para que serve, em termos de crescimento enquanto individuo este sair de casa? Prepara para o que? E enquanto estamos a abrir caminho a esta discussão, efectivamente, que objectivos de vida este individuo, único e diferente dos seus pais, tem?

Depois há também a outra perspectiva, a dos pais. Por vezes com culpa e medo interrogam-se “O que é para mim o meu filho ou filha sair de casa? O quão bem ou mal vou lidar com isso? O quanto me custa não saber se sabe tomar conta de si? Não era mais fácil para todos ficar tudo na mesma, até a vida ser mais estável?” São os pensamentos naturais. Aqui também se aprofunda em consulta estes pensamentos. Afinal, a alternativa é melhor? Para quem? O que vai acontecer? Afinal o que queremos enquanto pais? Então calculando o custo emocional, o que será melhor ou pior?

O objectivo final deverá ser calcular o “depende”. No fundo, conhecer melhor a relação pais-filhos e como esta se vai modificar. Porque a resposta correta a esta pergunta não é tanto um número, mas antes, qual o resultado final numa relação familiar, única e importantíssima, no constante processo educacional: criar um ser que esteja ao nosso lado como um igual.

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